sexta-feira, 7 de março de 2014

EDUCAÇÃO ESCOLAR DE PESSOAS COM SURDEZ

                                                                                                            Larissa Flores Bagolin

A educação escolar de pessoas com surdez (PS) no mundo contemporâneo em que vivemos está procurando enxergar a PS de uma forma globalizada e como sujeito dotado de capacidades, capacidades estas que devem e podem ser desenvolvidas tornando-os seres produtivos e capazes de desenvolver várias linguagens além das visou-gestuais. Diante desta visão, a Educação Especial e mais especificamente o Atendimento Educacional Especializado (AEE), passa a oferecer a PS a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) e a Língua Portuguesa (LP) como formas de comunicação e instrução introduzindo assim o ensino bilíngue em escola comum.
Durante séculos a educação de PS permaneceu segregada e, de certa forma ainda permanece, embasadas no embate entre oralistas e gestualistas. Discussões centradas na língua e em práticas pedagógicas específicas geraram entraves no desenvolvimento das PS desconsiderando o desenvolvimento individual e coletivo gerando um processo de exclusão.
As políticas existentes no Brasil e mais especificamente a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva de 2008, visam descentralizar a visão fragmentada do ser humano pautando as práticas educacionais e sociais em um viés inclusivo onde todos possuam igualdade de oportunidades inclusive as pessoas com deficiência. Neste sentido, a nova política de Educação Especial abre um leque de oportunidades para a participação das PS contudo, sabemos que a prática escolar encontra muitos desafios que necessitam ser superados na educação inclusiva das pessoas com perda sensorial auditiva.
As práticas escolares atuais ainda se encontram bastante voltadas para o mundo dos ouvintes, esquecendo-se da cultura, língua e identidade surda. Porém, já aceita-se as PS como seres capazes de desenvolver potencialidades adquiridas pelos ouvintes pois este público da educação especial não é considerado como deficiente e sim, como pessoas que possuem uma perda sensorial específica da audição. As concepções antigas são consideradas contrárias a concepção inclusiva pois possuem a língua como eixo central do processo educativo das PS relegando a um segundo plano o desenvolvimento dessas pessoas. Aliado a centralização da língua no processo educativo, temos também as práticas pedagógicas inalteradas as quais necessitam ser repensadas constantemente visando contemplar as especificidades das PS.
Pretende-se pensar a educação deste público de forma diferenciada fazendo com que sejam sujeitos ativos no processo de ensino aprendizagem. Que eles possam ter suas potencialidades desenvolvidas com suas características biopsicossocial, cognitivo e cultural consideradas na forma de aquisição e produção de conhecimentos. Com isso, a educação das PS passa a ser ressignificada com a criação de ambientes estimuladores e com a proposta de educação bilíngue (LIBRAS X LP) a qual valoriza a cultura e identidade surda e também a LP escrita como forma complementar de comunicação entre pessoas com surdez e pessoas ouvintes. A proposta de educação bilíngue além de cumprir as exigências legais do Decreto 5.626 de 5 Dezembro de 2005 tem efetividade na prática pois possibilita sentido ao processo educativo das PS fazendo com que os resultados positivos no processo educativo possam ser vislumbrados com maior facilidade.
Valorizando o potencial natural que estes sujeitos possuem é que efetiva-se a construção do AEE para PS no viés da política de educação inclusiva com o objetivo de disponibilizar serviços e recursos complementares ao ensino comum, sempre observando-se que o AEE deve ser complementar e não substitutivo do ensino regular. Através do AEE as PS tem suas potencialidades reconhecidas, capacidades estimuladas e diferenças respeitadas fazendo com que o estudante sinta-se incluído no processo escolar comum bem como os demais sujeitos.
Desta forma o AEE PS torna-se um parceiro do ensino comum conectado entre o pensar e o fazer pedagógico com vistas a eliminação de barreiras atitudinais no processo de ensino aprendizagem. O cotidiano adquire um significado levando-se em conta as vivências do estudante PS fazendo com que o educando sinta-se situado e compreenda melhor os conteúdos em estudo. Portanto, o AEE PS é organizado por meio de contextos, baseados nas representações sociais, culturais e científicas, a obrigatoriedade dos conteúdos curriculares também é mantida. É dividido em três momentos AEE em Libras, AEE de Libras e AEE para o ensino da LP oferecendo ao aluno com surdez segurança e motivação sendo elemento fundamental em um ambiente educacional inclusivo.

Enfim, se percebe que as possibilidades de ressignificação do processo de ensino para pessoas com surdez são bastante abrangentes e significativas se aplicadas com comprometimento por parte dos educadores envolvidos. A educação inclusiva e fazendo parte dela o ensino bilíngue, possibilitam a reconstrução de um processo educativo marcado por uma visão segregacionista e possibilitam também o pleno desenvolvimento e aprendizado por meio de Libras e da língua Portuguesa escrita. A educação no AEE para PS como ação educativa complementar e não substitutiva prepara a individualidade e a coletividade rompendo barreiras demonstrando que todos sujeitos tem potencialidades e que as mesmas necessitam e devem ser desenvolvidas.